sexta-feira, 25 de junho de 2010

QUE FRIA

Fazem uns dois anos...uma reunião da equipe comercial, aqui no sul fez com que alguns colegas, la do nordeste do pais , região que conhece o frio , apenas de cartão postal, decidiram ir até as tradicionais cidades – congelantes – de Gramado e Canela no RS.

Foram em quatro e, apesar do convite decidi não ir mas, ofereci blusas e casacos para que não fossem surpreendidos.

Descobriram o que é belo por aqui...a exuberância das paisagens das serras e os excelentes restaurantes escondidos nos caminhos.
Perceberam , ainda , as deficiências de algumas regiões, no que se refere a hospedagem de qualidade.
Mas, por fim chegaram a Gramado , fizeram o que todo turista faz...conheceram o máximo e compraram o mínimo mas, queriam levar uma lembrança e tiraram fotos e em um lugar em especial, em uma praça onde havia um relógio e a indicação do frio ...5 gráus.

Tiraram várias!
Mas...é claro, sempre faltava um. Ate que um deles resolveu pedir para uma garota , que estava em um outro grupo, só de mulheres...para que tirasse uma foto. Tirou!
Mas ai as amigas decidiram sair na foto e tiraram uma foto, todos abraçados , naquela praça em Gramado, sob um frio congelante...e, depois da foto, se despediram e, eles iniciaram a longa viagem de volta.
Embarcaram para suas casas, no dia seguinte e a máquina foi colocada , por um deles , sob o computador no seu home office. Viajou, pois os compromissos profissionais assim exigiam.

Um filho foi usar o computador do pai, encontrou a máquina com as fotos ainda não “baixadas” e, foi ajudar o pai...

Bem...segue o que naturalmente aconteceu.

Aí...querida, eu juro que não sou eu. Que coisa ridícula! Se você estivesse aqui estaria vendo isso em meus olhos - Alô? Alô!

Se quer saber, pq desliga? - olha, se você estivesse aqui ia ver a minha cara,inocente como o Diabo.
O quê? Mas como, ironia? "Como o Diabo" é força de expressão, que diabo.
Você acha que eu ia brincar numa hora desta?
Alô! Eu juro, pelo que há de mais sagrado, pelo túmulo de minha mãe,
pela nossa conta no banco, pela cabeça dos nossos filhos que não sou eu com a cabeça no colo daquela loira. O quê?
Alô! Alô! Como é que eu sei qual é a foto? Mas você não acaba de dizer...
Ah, você não chegou a dizer... ah, você não chegou a dizer qual era a cor do calebo dela. Bom, bem. Você não vai acreditar mas acontece que eu mentalizei a situação e vi a foto. Não desliga! Eu também vi a foto ai na máquina fotográfica e tive a mesma reação. Que sujeito parecido comigo, pensei. Podia ser gêmeo. Agora, querida, nunca,em nenhum momento, está ouvindo?
Em nenhum momento me passou pela cabeça a idéia de que você fosse pensar - querida, eu estou até começando a achar graça -, que você fosse pensar que aquele sou eu. Por amor de Deus.

Pra começo de conversa você pode me imaginar com a cabeça no colo daquela loira – oxigenada – peituda – não natural – com aquele decote no vestido vermelho? Não,faça-me o favor.
E a cara das bandidas! Francamente, já que você não
confia na minha fidelidade, que confiasse no meu bom gosto, poxa! O quê?
Querida, eu não disse "peito não natural". Tenho a mais absoluta, a mais tranqüila, a mais inabalável certeza que eu disse apenas "não seria natural".
Como é que eu podia saber que era silicone? Alô? Alô? Não desliga! Não... Olha, se você desligar está tudo acabado. Tudo acabado. Você não precisa nem estar ai quando eu voltar para casa , volte para a praia. Fica lá com as crianças e funda uma colônia de pescadores.
Não, estou falando sério.
Perdi a paciência. Afinal, se você não confia em mim não adianta nada a gente continuar. Um casamento deve se... se... como é mesmo a palavra?...se alicerçar na confiança mútua.

O casamento é como um número de trapézio, um precisa confiar no outro até de olhos fechados.
É isso mesmo.
E sabe de outra coisa?
Eu não precisava ficar para ir a esta conveção.
Foi tudo mentira.
Eu não tinha que ficar mais dois dias na matriz da empresa trabalhando
coisíssima nenhuma.
Eu fiquei sabe para quê?
Para testar você. Ficar estes dias a mais lá no sul foi como dar um salto mortal, sem rede, só para saber se você me pegaria no ar.

Um teste do nosso amor. E você falhou.
Você me decepcionou.
Não vou nem gritar por socorro.
Não, não me interrompa.
Desculpas não adiantam mais.
O próximo som que você ouvir será do meu corpo se estatelando, com o baque surdo da desilusão, no duro chão da realidade.
Alô?
Eu disse que o próximo som... que... O quê?
Você não estava ouvindo nada?
Qual foi a última coisa que você ouviu, coração?
Pois sim, eu não falei - tenho certeza absoluta que não falei - em "peito não natural”.
Sei lá que cor era o vestido dela com daquele cretino na foto.
Você precisa acreditar em mim, querida.
O casamento é como um número de...
Sim. Não. Claro. Como? Não. Certo.
Quando você voltar pode perguntar para o...
Você quer que eu jure?
De novo?
Pois eu juro. Passei sábado,domingo, segunda e terça na empresa. Não vi Gramado nem pela janela do avião.
Só vim ao hotel tomar um banho e comer um sanduíche e voltava para a empresa. Como? Você telefonou para o meu diretor.
Meu bem, é claro que a secretária não estava informada sobre a minha localização , não é, bem. Ha, ha, você é demais.
Olha, querida? Alô? Sábado eu estou aí. beijo nas crianças.
Socorro. Eu disse, um beijo.
Tomou um copo de água com açucar...respirou fundo e ligou para cada um dos que estavam na foto e, rasgou o bilhete com o telefone da loira.