Nos anos 70, trabalhava como Auxiliar de Folha de Pagamento de uma multinacional mas, eventualmente, era “convocado” para ser o preposto em algumas reclamações trabalhistas.
Foi em uma destas ocasiões que ao cruzar a Avenida São João na esquina com a Ipiranga que ouço uma voz chamar meu nome... “JP”...
Procuro ao redor e, nada...quando ouço novamente ..”ô JP”...e percebo que a voz vem de um vulto,que se esgueira no beiral de uma porta...me aproximo, e percebo que a figura não é de todo estranha.
O Pedrão.
Ele tinha sido meu colega de Colégio “Yolanda Ascênsio” em São Caetano...já fazia alguns anos, é claro. Era um eterno defensor de causas perdidas e jamais achadas. Promoveu manifestações memoráveis para que a coxinha de galinha da cantina, tivesse galinha...dentre outras, foi expulso, naturalmente.
Mas, dizem que o motivo a expulsão foi outro..., pelo que me lembro, a turma queria o adiamento de uma prova de matemática – coisa simples , burocrática, que merecia um tratamento discreto mas, o Pedrão se ofereceu para servir como porta-voz perante a direção. O diretor e o professor ouviram as reivindicações mas, o Pedrão, aproveitando o momento, deu uma “incrementada” nos pedidos tais como autorização para fumar na sala de aula,namorar no horário do lanche e direito de opinar para a escolha do novo diretor e por ai vai. Tudo por escrito, com cópia para a Comissão de Direitos Humanos da ONU , em Genebra.
Bem, nem precisaria dizer que as provas foram ministradas na data prevista. Do Pedrão...nunca mais ouvimos falar...até aquela tarde.
Ele parecia surpreso ao me ver. Na sua face uma expressão de alegria e medo.
- “Olá JP” disse ele meio afobado. “Você está sozinho?”
-“Se eu estou o quê? Mas é clare que estou sozinho, cara. E depois de tanto tempo você me vem com uma dessas?”...
-“Tudo bem , companheiro” ele respondeu, enquanto olhava furtivamente em varias direções.”Era para me garantir. Nunca se sabe.”
- “Para se garantir...escuta aqui ô meu: você não esta andando por caminhos tortos, anda?”
- “Nada disso, companheiro. Não esquenta.”
-“ Mas então , conta pra mim : se garantir de que , então?”
- “ Dos homes, amigão, dos homes.”
- “Putz Pedrão. Não vai me dizer que você desmunhecou?”
Ele me olhou com certa pena e desprezo, enquanto acendia um cigarro.
- “Dom homens, cara. Dos Federais.”
Agora foi eu quem olhou para todos os lados. Sentia-me culpado , terrivelmente culpado de alguma coisa...qualquer coisa.
- “ O que tem feito JP?”
Senti minhas pernas tremerem...
- “ trabalho em uma multinacional , na área de DP...e você, o que está fazendo aqui?”
- “ De tocaia. Esperando.”
- “ Esperando o que?”
- “O líder companheiro. Ele anda clandestino. E eu lhe dou cobertura.”
- “Líder, que líder?” A esta altura, já estava achando que tinha uma péssima idéia ter atendido ao chamado de meu nome...
Mas a face dele havia se iluminado.
-“O Lu...quer dizer: O líder, companheiro, é a resposta da classe operária aos patrões. Uma raio proletário na cabeça do sistema que está ai.”
Os olhos dele estavam marejados de lágrimas...
-“ Um cara que traz uma nova proposta, companheiro JP” O Pedrão parecia estar em estado catatônico. “Sem compromissos com o sindicalismo que está ai. A favor de um movimento operário livre. Sem corrupção, nem pelegos.
_ “Por enquanto só posso te dizer que ele é um operário, metalúrgico, companheiro. A luta operária exige o anonimato, sabia?”
Neste momento, uma figura vem do interior do prédio em direção a porta...a luz não me permite ver seu rosto claramente mas, é uma pessoa não muito alta, forte – modelinho atarracado – e ..bem, um biotipo nordestino – talvez.
O Pedrão saiu correndo atrás, alucinado, sem sequer se despedir...e, em alguns minutos perderam-se na multidão.
Mais tarde, fiquei deduzi que o tal “companheiro” era o Lula após vê-lo algemado entrando em um camburão da policia – ou DOPS transmitida ao vivo pela TV.
Era o embrião de um liber trabalhista que estava surgindo...
Clandestino, às escondidas...e fruto de um idealismo coletivo de contestação.