Confesso que minha memória tem me pregado algumas peças ...esquecer onde estacionei o carro é coisa comum mas, o mais terrível é esquecer o nome de pessoas e...é fatídico, vira e mexe aparece alguém me cumprimentando , puxando um assunto de forma tão natural que me sinto constrangido ...envergonhado ....mas,isso já deve ter acontecido com você...diga a verdade!Aquela pergunta clássica:- Não está se lembrando de mim?
E você sorri...um sorriso amarelo e...puta merda...você não lembra do cara. Revira freneticamente os seus arquivos metais ...empresas onde trabalhou, palestras, eventos, vizinhos e... não encontra nada. E, ele está ali na sua frente, de mão estendida , sorrindo e com os olhos iluminados e perguntando novamente. Lembra ou não lembra?
A esta altura do campeonato você tem três opções :
1- Assume que é um esquecido e diz um curto e sincero “Não” ...afinal, você não tem obrigação nenhuma de conhecer esse cara e, você não deveria ter vergonha por lembrar.
2- Outra possibilidade é a dissimilação...” Não , me diga. Você é o...o...” e isso quer dizer “me dê um luz ...me diga que você é!” e complemente....” Desculpe deve ser a velhice, mas...” ou talvez não tenha relacionado com sua memória ou a funcionalidade de seus neurônios mas, a insignificância deste ser que teima em testar sua memória.
3- E há o terceiro caminho. O menos racional e recomendável. E que pode leva-lo à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.- Claro que estou me lembrando de você!Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:- Há quanto tempo!Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.- Então me diga quem eu sou.Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:- Pois é!
Ou um mais enigmático....
- Hum hum!Ou:- Bota tempo nisso.Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem é esse cara, putz? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas do meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras.- Como você tem passado?- Bem, bem.- Parece mentira.- Puxa.(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara?)Ele está falando:- Pensei que você não fosse me reconhecer...- O que é isso? Claro que não...- Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.- E eu ia esquecer você? Logo você?- As pessoas mudam. Sei lá.- Que idéia!(É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Oswaldo! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo, amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e pimba, chuta uma perna. “Que saudade!” e pimba, chuta a outra. Quem é esse cara?)- É incrível como a gente perde contato.- É mesmo.Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.- Tem visto alguém da velha turma?- Só o Pontes.- Velho Pontes!(Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)- Lembra do Barone?- Claro, ....você mente!- Esse eu também encontro, às vezes, no clube.- Velho Barone!(Barone. Clube. Você não conhece nenhum Barone e muito menos em um Clube. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda a cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)- Oswaldo...- Quem?Não é ele. Pelo menos isso está esclarecido. Putz...que mancada!- Não tinha um Oswaldo na turma?- Não me lembro.- Devo estar confundindo.Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado.- Sabe que a Ritinha casou?- Não!- Casou.- Com quem?- Acho que você não conheceu. O Bituca.Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?- Claro que conheci! Velho Bituca...- Pois casaram...É a sua chance. É a saída. Você passa ao ataque.- E não me avisaram nada?!- Bem...- Não. Espera um pouquinho. Todas essas coisas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Barone no Clube, e ninguém me avisa nada?!- É que a gente perdeu contato e...- Mas o meu nome está na lista, meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.- É...- E você ainda achava que eu não ia reconhecer você. Vocês é que esqueceram de mim!- Desculpe, Edgar. É que...- Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam...(Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”)- Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?- Certo, Edgar. E desculpe, hein?- O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.- Isso.- Reunir a velha turma.- Certo.- E olha, quando falar com a Ritinha e o Mutuca...- Bituca.- E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?- Tchau, Edgar!Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo.