O dia amanheceu quente, como sempre, naquele país da América central. O embaixador tomava seu café da manhã, lendo as noticias dos jornais locais e um exemplar – atrasado – do NY Post que dava noticias sobre a chegada dos presidentes á reunião da cúpula do Meio Ambiente na ONU , o Lula , seu chefe máximo falaria na abertura.
O embaixador havia programado um jogo de CRICKET com o adido da embaixada inglesa, não há muito o que fazer nestas terras o clima ficou – apenas – morno com o golpe que tirou do poder Manuel Zelaia, uma figura controvertida que se aproximava – segundo os jornais locais – do grande mestre da revolução Bolivariana Hugo Chaves.
Mas, este assunto em nada influenciava a atuação da chancelaria brasileira.
O embaixador preparava sua retirada da mesa do café da manhã, com alguns livros sob o braço – interessado em arqueologia , lia um livro sobre o deserto mesopotânico, havia feito – a alguns anos – uma excursão arqueológica no deserto de Wichita , no Kansas (EUA) , foi um curso introdutório e apaixonou-se.
Eram 10h da manhã, a campainha toca e um serviçal hondurenho dirige-se ao portão principal, o expediente administrativo estava apenas iniciando , a secretária e o pessoal de apoio estavam chegando, aos poucos...sem pressa, como compete a um bom funcionário público.
O portão é aberto, um táxi está parado diante do portão – cucaracha (baratinha) ou um fusca em nosso sábio idioma.
Dentro havia algumas pessoas mas, com o vidro escurecido era difícil saber quantas ou quem eram , a porta se abre... descem várias pessoas ...o serviçal não os conhece ou reconhece , pelo menos não nestes trajes – estavam de bermudas, sandálias e chapéu de sol.
Já havia visto esta cena...recentemente alguns parentes do embaixador haviam aparecido por lá e se “hospedado” longos trinta dias ...o próprio embaixador corre até o portão a tempo de tentar barrar esta “invasão” mas, é tarde ...já estão do lado de dentro e identificam-se como parentes (muitos), amigos (muitos) e ministros e empregados (poucos mas, fiéis) mas o que querem aqui...não erraram de embaixada? A da Venezuela talvez....fica duas quadras ao norte.!
Não, era aqui mesmo ...
O embaixador correu até o portão a tempo de ver o taxista abrir o capô do fusca e revelar seu maior segredo...lá estava o próprio Zeláia sai de lá...e entra correndo na embaixada , quase derrubando seu anfitrião no portão... nem ouve o taxista falar...”la plata!”... oquê, perguntou atônito..sem entender direito...”la plata “ seria possível? O taxista queria cobrar a corrida ...?
Mas...era muita petulância deste ...desde...desde... ditadorzinho de merda (pensou ele, claro! Afinal um embaixador nunca diria este nomes...um ministro, talvez mas, alguém do Itamaraty...nunca!)
Pede então para que o serviçal vá buscar sua carteira ... sorri para o taxista e pede que aguarde...chega a pensar que está sonhando é, é isso , vou acordar e tudo isso não passa de um sonho – a lagosta que comeu no jantar não desceu bem , aliás...os crustáceos e moluscos, de maneira geral não tem feito bem aos membros do Itamaraty .
Vou acordar...e tudo vai passar. A carteira chega ... e ele pergunta ao taxista que esta sentado , pacientemente , sobre o para lama do fusca em péssimo estado (diga-se de passagem) ..mas, quanto é ?
5.500,00 , diz o taxista.
O embaixador faz a conversão mental de dólar para peso hondurenho e isso é algo próximo de 10 dólares ...saca uma nota de 50 e estende ao taxista e diz - pode ficar com o troco , ok?
O taxista recusa e diz , “ No...No... señor , som 5.500,00 dólares americanos ...jo estoy vindo de Costa Rica até a cá “
O que? U$ 5.500,00 ? Isso é um absurdo ....ele não tem este dinheiro na embaixada .
O taxista está impávido diante da embaixada e avisa “ lo taxímetro está operando , ainda em la bandera 2 ...ok?
O embaixador entra e passa a arrecadar dinheiro dos funcionários da embaixada...explica os motivos e diz que todos serão recompensados pelo ato – talvez um aumento salarial ou uma medalha – não sabe, mas decidirá isso depois.
Quebra o cofrinho dos funcionários “ a famosa caixinha, colocado em um canto no balcão de atendimento ao público”
Conta e reconta... U$ 4.499,00, certamente taxista aceitará....corre ao portão e, quando abre , o taxista – com um palito de dentes no canto da boca – camisa florida aberta até o meio do peito e uma corrente de prata ,exuberantemente grossa, que seria capaz de segurar uma matilha de doberman´s diz... “ aora som U$5.550,00 dolares americanos...”
Como assim? Não temos este dinheiro aqui na embaixada do Brasil...deveria ter ido para a americana ou para a alemã mas... somos todos do terceiro mundo – argumenta o embaixador – mas, o incessível taxista não quer saber... e estende a mão para receber o dinheiro...
Si compreendo e para usted e só para usted , como “ fui com su cara” voi a dar um descontito , nom voi a cobrar la espera ...solamente los U$ 5.500,00 , ok?
E passa a contar... notas e moedas e chega a U$ 4.499,00 dólares .... e diz ...” está faltando um dólar ....
O embaixador apela para o bom coração do homem....e nada
Fala da seleção....e nada
Do corinthias....e nada
Do Rio de Janeiro ...e nada
O homem vê o retrato do Lula..pendurado ao longe...em uma sala e diz que o quer.
O embaixador não entende...a acha que ele esta apontando para um quadro de Hercília do Amaral ...e diz - não este não - e o taxista diz que quer o retrato de lo senõr Lula ...
Sério? Quer o retrato do Lula..., é isso? Si....si..diz o taxista!
O retrato é tirado da parede por um dos serviçais e levado ao embaixador ....que o repassa para o taxista e este, agradece ...pega o U$4.499,00 , entra no carro e sai...
O embaixador da uma última olhada no carro que se afasta da embaixada , a tempo de ver um adesivo no vidro traseiro “ Não existe um homem totalmente inútil mas, existem exceções “.
Enquanto fecha o portão e se dirige aos “invasores” pensa... na frase que leu no vidro do táxi e pensa – como é bom ter um presidente como o Lula cuja foto serve , pelo menos para arredondar o troco ....e se fosse a Dilma ? Bem , se recusa a pensar nesta hipótese talvez tivesse que se desfazer do quadro do Bob Esponja , esse nunca ele daria – tem valor sentimental.