sábado, 15 de agosto de 2009

UM MOLUSCO

Era um dia normal de trabalho naquela grande metalúrgica do ABC. O Sr. X , desligou o torno e foi dirigindo-se, devagar...sem pressa alguma, para o vestiário da fábrica . E o Sr.X havia acabado de voltar de um afastamento , havia ficado quase um ano afastado por ter perdido um dedo nesta mesma máquina mas....havia valido a pena, afinal tinha escapado do “facão”.
Vários colegas perderam o emprego...mas, isso nem passava pela sua cabeça afinal, cada um se garante como pode.
Ele não estava com pressa, como pareciam estar os outros empregados que para lá se dirigiam.
Pressa para que? Pensava ele. Estava frustrado pelo fato de ter tentado uma aposentadoria antecipada, para fugir do maldito torno e do maldito supervisor....ele queria é voltar para Pernambuco e, viver criando cabras e plantando mandiocas.

Estava na empresa a pouco mais de 4 anos...mas, detestava aquela rotina e nem sabia onde ia encaixar as peças que fazia.
Houve um tempo em que o Sr. X pensou em consertar aparelhos de televisão..fazendo um curso por correspondência, pensava que poderia iniciar trabalhando em casa, arrumando aparelhos dos amigos e vizinhos. Abriria então uma pequena oficina ali em São Bernardo do Campo.
O Sr. X chegou ao vestiário, havia muita umidade cheirando a óleo lubrificante. Havia mais gente que o de costume, mais operários estavam ali e até alguns administrativos estavam falando alto e gesticulando . O Sr X aproximou-se do grupo , estavam todos ouvindo um cara que ele já havia visto por lá ...era um membro do PCB , não era ligado ao sindicato...mas tinha lá sua ideologia contestatória.

O assunto era GREVE. Greve para aumentar os salários...o Sr X nem sabia se fica ali ou não. Ficar ou ir embora? Tanto faz...decidiu ficar. Não tinha pressa alguma.

A turma estava indecisa. O cara do PCB, apesar de “agitar a galera” não estava tendo sucesso na mobilização desejada. Seu discurso estava descolado do nível de entendimento dos operários. Por isso o pessoal não sabia se confiava ou não nele. Da forma que estava não dava para continuar mas...como confiar nesse “cara”, será que ele não é do DOPS?
De repente o Sr X teve vontade de pedir a palavra...e com uma voz rouca, falou que o importante ...não era discutir o socialismo – que ele nem sabia o que era exatamente – mas, que o salário estava pouco a pressão dos supervisores esta insuportável e da absoluta falta de esperança.
Falou bonito...e falou pra burro. Nunca tinha falado tanto. O pessoal ouviu em silêncio. Não era comum ouvir um deles falar deste jeito. Muito menos um operário da tornearia e, em especial esse tal Sr. X .
E, como foi sincero, palmas...muitas palmas.
A greve estava decidida, só precisa ser confirmada pela assembléia .
Muitas palmas e tapinhas nas costas... O Sr X estava eufórico e seria o orador na assembléia geral da fábrica.
Foi na assembléia , falou bonito de novo. Bonito o suficiente para novos aplausos, os tapinhas e palavras de apoio. O pessoal do sindicato...que estava quase quebrado, o convidaram para uma cervejinha depois do sucesso da decretação da greve.

A greve foi um sucesso. E “pipocou” por outras fábricas e o Sr. X sempre como convidado de honra para falar e mobilizar a “galera” .

O Sr X virou um herói....os meses seguintes se passaram com o Sr. X indo a várias reuniões sindicais , conhecendo gente diferente e outros lugares e outras fábricas.

O Sr, X passou a ficar no meio de tudo...informado de tudo e controlando tudo, ele tinha o dom da palavra.

E...vieram as eleições do sindicato.
Ofereceram-le um cargo de Diretor , aceitou e ganhou. Mas, não levou...o sindicato estava sob intervenção do Ministério do Trabalho e, as reuniões aconteciam em butecos de Vila Euclides .

O presidente do sindicato, abandonou a posição e...convidaram o Sr. X a ocupar a posição e a posse foi na igreja matriz da cidade...tinha tanta gente lá, políticos , padres, professores e outros tantos que ele nem sabia quem eram. Falava-se em “revolução das massas” ...”opressão da oligarquia” e “dialética proletária”.

A esta altura o Sr. X já havia entendido o que era o poder e...como usá-lo . Um poder diferente...sem gravata ou quepe de militar ....um poder com cheiro de óleo, capaz de mexer com boa parte do PIB do país...pois as fábricas do rico ABC estavam em suas mãos.

E no topo deste movimento estava ele “Seu” X , ex torneiro mecânico e, de agora em diante uma estrela que subia...subia e...subia.

Bem... hoje, só nos resta imaginar o que teria acontecido se o Sr. X tivesse sido aposentado pelo INSS , após seu acidente ....ou se tivesse sido demitido ?
Chego a pensar que, esta estrela nunca teria subido.